Não é um blog. Não é uma coluna. E nem tem a pretensão de ganhar status de obra literária. É apenas uma fonte de distração e exercí­cio acadêmico de uma humilde estudante do 3° perí­odo de jornalismo... Podendo ser, qualquer um destes textos, crônica, conto, resenha, crí­tica... Enfim, qualquer coisa.

Sinta-se a vontade para ler, reler... E gostar. Rá-rá.

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trente-six fillette

A mulher saiu do cinema. A película francesa não lhe havia agradado muito. Entretanto, voltava pra casa a respirar o acre ar do subúrbio inteiramente inebriada pelo charme da doce Lolita da tela grande.
Como ela, queria seduzir. Olhava os homens. Olhava as cores. Por quê tudo lhe parecia tão vivo? Por quê a essência da vida lhe estava ali, tão exagerada? Por que seus sentidos se apresentavam tão aguçados?
Ela sentia que tinha o mundo nas mãos. E o poder entre suas esguias pernas. Queria laçar um homem entre elas. E sentir-se completa nem que fosse por algumas dezenas de segundos. Queria amar a vida. Queria ser amada por ela. Queria ser amada pelos homens, não importando sua classe, cor ou credo. Queria sentir, suar, sorrir, doer... Como a jovem do filme. Queria esquecer das contas a pagar e das rugas que já lhe riscavam a face. Queria sentir o vento em seus cabelos. Queria deixar-se encharcar pela chuva numa noite de temporal. Queria tocar o corpo do jovem rapaz que se sentara na poltrona ao lado. Queria sentir rugir a fêmea que ainda se escondia por trás dos óculos e dos trajes comportados.
Queria sentir a vida latejar em cada milímetro cúbico de sangue em suas veias cianescas... Queria se sentir mulher, mas com o espírito livre e selvagem que alguma vez tivera antes de chegar tão perto da meia-idade, onde se encontrava agora. Queria ser bicho. Queria de volta o que a fizera divertir-se e gargalhar por tanto tempo. Queria a alma de Lolita num corpo de mulher. Queria algo que já não mais podia ter...
Mais uma vez, sozinha, ela volta pra casa e dorme. E no dia seguinte, já nem se lembra mais de seus anseios por devorar a vida. As atribulações a fazem esquecer. A Lolita já lhe esmoece na memória... E a vontade de viver? Ah, essa se torna só mais um sonho que ela não pode comprar...


// 01 fevereiro 2006 -