|
o absurdo do viver
O ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. A regrinha obrigatória das aulas de ciências do primário poderia indicar um curso simplório e humilde de vida... Do primeiro berro ao último suspiro, existir, valendo-se das graças do Criador, seria plenamente suficiente a todos os mamíferos dotados de um tele-encéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor em cada mão, sendo estes responsável pelo movimento de pinça. Poderia ser simples assim, mas não é. A vida nos prega peças todos os dias. E também temos nossa parte nisso. Se a vida não nos dá espinhos, mandamos criar-lhes em laboratório... Só os animais, vegetais e minerais são felizes. Porque só eles seguem esse curso natural da vida (peraê, os minerais também!?). Mas o ser humano precisa complicar tudo. É inerente à nossa natureza a intensa criação de... Problemas. Desde que Eva comeu a maçã, o processo é o mesmo. O que seríamos nós se não fôssemos meros causadores de transtornos? O que seria do trânsito sem os engarrafamentos? Das batatas-fritas sem o colesterol? Do sexo sem a camisinha? Do trabalho sem o vestibular? Da certeza sem a dúvida? Do amor sem o chifre? NADA. A vida poderia ser mais simples... Poderíamos apenas VIVER. Entretanto, nossos sentimentos torpes nos inclinam a aspirações absurdas, ganância desmedida, obrigações infundadas, valores arcaicos. O rapaz nasce e já é um problema pra mãe, pois não é fácil encontrar uma babá que cobre barato, o cuide bem e não o espanque. Depois, ele entra na escola e precisa se afirmar entre os coleguinhas para não apanhar. Em breve, ele pensará em como conseguir dinheiro para ir no show da sua banda de rock preferida. Logo então, precisa comprar o presente para a namorada em seu aniversário. Decide o que vai fazer para o resto da vida antes mesmo de completar a maioridade. Põe aliança no dedo de uma qualquer só para não se sentir sozinho. Tem filhos porque é necessário que o macho perpetue a espécie. Descasa. Re-casa. Descasa. Re-casa. Tem mais filhos e logo têm que trabalhar mais porque precisa pagar a pensão aos rebentos do primeiro casamento. Vê as rugas cortando o rosto e jura que se tivesse dinheiro (conseqüentemente, se trabalhasse mais) faria uma plástica. Perde o ar nas academias para ficar sarado. Descasa de novo. Está sozinho. E quando as pernas já não agüentam mais tanta pressão, o coração pára e tudo acaba. Por quê tanto empecilho? Pra quê tantas regras? Aliás... por quê tantos questionamentos, se viver já seria o suficiente? Viver é o maior problema. É doença irremediável que só se cura com a falta dela, com o fim último: a morte. O ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. Quer absurdo maior que esse?
// 09 dezembro 2005 -
|